pertenço ao
grupo dos que sentiu como para além de brilhante o filme a marriage story. vamos lá então a pedido e por vontade. avassalador. argumento real de tão honesto. intenso. baseado numa fase da vida
do realizador. li que não é autobiográfico. ok sei que isto da ficção é uma arte.
mas há coisas que só depois de vividas e sentidas e mastigadas conseguem ser
transmitidas (não obstante ser para mim mais do que uma narrativa sobre um divórcio) creio que por osmose também o filme dirá mais a quem como noah baumbach passou
por lá. para todas as nicoles e charlies o efeito espelho é imediato. duro de
digerir. não por ser piegas ou lamechas. por ser cru. ajudam os ingredientes com salpicos de humor. vemos como no momento
zero a frustração de dar de caras com o efetivo final consome. tolda o
discernimento. faz dizer e fazer e acontecer o que não são mais que
demonstrações de força em palco de guerra. numa disputa insana pelo que foi
enquanto se tenta controlar o que será. como se isso fosse exequível. e a
máquina que alimenta os egos por detrás. advogados. terceiros com palpites e a pressão social. vemos depois e quando nos afastamos
como as sequelas de um evento traumático cegam. como legitimam que se deixe de
considerar o que não pode nunca ser desconsiderado. as crianças. antes do
carregar no play calculei que ao vê-lo choraria baba e ranho. ao estilo kramer
contra kramer. mas não. não aconteceu. para alem do infortúnio que acompanha os
três há neste enredo uma subliminar nota de esperança. de expectativa sobre
outros trilhos. outras opções. salvação. talvez por isso o meu plano de eleição seja o final. quando ela
se baixa para apertar o atacador dele. ele que é quem carrega ao colo a
dormitar o filho de ambos. “mesmo que já não faça sentido”. só que faz. fará
sempre. um divorcio é uma desvinculação entre o casal. não entre os pais. é
isso que também o filme traz como recordatório em modo de bofetada mental. frase comum pouco vista em ação. depois da catarse feita há que agarrar a coragem para (re)começar. (re)lembrar que
ela continua a ser “uma excelente ouvinte e uma ótima mãe”. que ele “é um pai
incrível, de lágrima fácil”. simples? não. é complexo. possível? sim. é
reparador. a receita? proferir o nome de quem se trouxe ao
mundo. só. mas num dizer sentido. que venha de dentro. henry não sabe mas só
por existir vai garantir que o melhor dos pais é mantido. nicole e charlie vão
saber reinventar-se num novo paradigma de relacionamento. uma dupla a cuidar em
equipa. de resposta nem sempre certeira. mas solidária perante atacadores e outras ocorrências fora-de-sitio. não
faço ideia de como encontraremos pessoal e profissionalmente adam driver e
scarlett johansson num take II. atrevo-me porém a antever uma representação de dois
adultos orgulhosos por conseguirem ajudar henry a crescer da melhor forma que
lhes foi possível. sem armas. assim como uma criança que não foi dividida. é partilhada. mr. baumbach - modéstia à parte - posso avançar?
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